Texto fundador
Carta mínima da rede AnarBib
Documento curto, assinado na entrada de uma biblioteca na rede. Versionado como um texto vivo, não como uma lei rígida.
Preâmbulo
Esta carta é a base comum, e somente a base, que torna possível a cooperação entre bibliotecas militantes anarquistas que usam AnarBib. Ela não impõe linha política, formato único nem autoridade central. Ela diz o que consideramos não-negociável para sermos uma rede, e deixa intacto o que diz respeito à autonomia de cada biblioteca.
Toda biblioteca que adere ao AnarBib reconhece este texto. Toda biblioteca pode sair da rede a qualquer momento, sem justificativa, e conservar seus dados.
Artigo 1 — Sobre o espírito do projeto
A rede AnarBib se reconhece na tradição anarquista, nas suas práticas de autogestão, ajuda mútua e horizontalidade. Ela recusa as hierarquias institucionais, as relações mercantis e qualquer forma de vigilância sobre leitores·as·es.
Isso não significa que todas as bibliotecas da rede pensem a mesma coisa. Significa que partilham essas práticas como base mínima de trabalho comum.
Artigo 2 — Sobre a soberania local
Cada biblioteca da rede é plenamente soberana sobre :
- seu acervo documental e suas escolhas de aquisição ;
- seu regimento interno (prazos de empréstimo, modalidades de atendimento etc.) ;
- sua equipe, sua organização, suas tomadas de decisão ;
- seus leitores·as·es e a gestão dos seus dados.
Nenhuma outra biblioteca, nenhum coordenador·a·e de rede, nenhum mantenedor·a·e do software pode impor uma escolha interna a uma biblioteca aderente.
Artigo 3 — Sobre a cooperação
Aderir à rede é aceitar cooperar minimamente. Concretamente :
- partilhar as fichas bibliográficas produzidas localmente, para que outras bibliotecas possam reutilizá-las ;
- responder, na medida do possível, aos pedidos de empréstimo entre bibliotecas vindos de outras aderentes ;
- sinalizar dificuldades encontradas, falhas e necessidades de evolução.
A cooperação é uma orientação, não uma obrigação contratual. Ninguém é penalizado·a·e por não cooperar o suficiente.
Artigo 4 — Sobre os dados de leitores·as·es
Nenhuma biblioteca da rede pode :
- vender, alugar ou partilhar com fins comerciais os dados de seus leitores·as·es ;
- transmitir esses dados a terceiros que não sejam outra biblioteca da rede, e somente no quadro estrito de um empréstimo ou de uma troca documental ;
- conservar dados por mais tempo do que o necessário à gestão concreta da biblioteca.
Leitores·as·es podem, a qualquer momento, pedir consulta, correção ou supressão dos seus dados.
Artigo 5 — Sobre a gratuidade
O uso do AnarBib é gratuito. Nenhuma biblioteca, nenhum mantenedor·a·e, nenhum grupo pode condicionar o acesso ao software a um pagamento, uma assinatura, uma contribuição obrigatória.
As bibliotecas podem, se desejarem, apoiar financeiramente o projeto por meio de doações livres. O projeto permanece utilizável e funcionalmente completo sem qualquer contribuição financeira.
Artigo 6 — Sobre o software livre
O código-fonte do AnarBib é publicado sob licença livre. Isso significa que :
- qualquer pessoa pode lê-lo, modificá-lo, redistribuí-lo ;
- as modificações redistribuídas devem permanecer livres ;
- nenhuma funcionalidade pode ser reservada a uma versão « profissional » ou « paga ».
As modificações locais de uma biblioteca permanecem com ela ; somente a redistribuição pública impõe o retorno ao livre.
Artigo 7 — Sobre as línguas
A interface do AnarBib é multilíngue. A língua de referência do projeto é o português brasileiro, em reconhecimento à biblioteca que conduziu a iniciativa. As outras línguas são igualmente mantidas. Toda biblioteca aderente pode pedir a inclusão de uma língua ; o trabalho de tradução é partilhado.
Artigo 8 — Sobre a entrada e a saída da rede
Para entrar na rede, uma biblioteca envia um pedido de adesão, assina a presente carta e é acolhida pelas outras bibliotecas da rede. A decisão de admissão cabe às bibliotecas já aderentes, por consentimento.
Para sair da rede, nenhum procedimento é exigido. A biblioteca que sai conserva seus dados, sua instância, sua ferramenta. Ela perde apenas os vínculos técnicos com as outras bibliotecas (trocas, importações cruzadas, empréstimos entre bibliotecas).
Artigo 9 — Sobre a evolução desta carta
Esta carta é um texto vivo. Ela evolui por discussão entre as bibliotecas aderentes, segundo as práticas da rede (consentimento, tomada de decisão horizontal). Toda modificação é versionada e pública. Nenhuma modificação retroativa pode desvincular uma biblioteca aderente sem que ela tenha podido debatê-la.
Artigo 10 — Sobre o que não está nesta carta
Tudo o que não estiver explicitamente nesta carta cabe à autonomia local, à discussão na rede, ou à prática. Esta carta é voluntariamente curta. Ela não pretende reger o conjunto das situações possíveis. Ela põe o quadro mínimo que torna a cooperação possível, e nada mais.
Versão 1 — 29 de abril de 2026. Texto versionado publicamente no repositório do projeto.